'Declaro que realmente matei Bianca Consoli', escreve Sandro Dota.
Advogados dizem que réu confessará crime em novo júri, em SP.
O motoboy Sandro Dota, acusado de estuprar e matar a cunhada Bianca
Consoli em 2011, escreveu uma carta de confissão na qual assume o
assassinato da estudante, mas nega que a tenha violentado sexualmente. A
afirmação é da nova defesa do réu, que mostrou ao
G1
três folhas assinadas por ele de dentro da prisão. No documento, o preso
também se compromete a confessar que matou a estudante no seu
julgamento, remarcado para 16 de setembro em
São Paulo.
O Ministério Público, o assistente da acusação e parentes da vítima não
foram encontrados pela equipe de reportagem para comentarem o assunto
até esta terça-feira (13).
Os papéis, datados de 2 de agosto, informam que o texto foi escrito de
próprio punho por Dota de dentro da Penitenciária 2 de Tremembé,
interior do estado de São Paulo. Nesse mesmo dia, o acusado também
constituiu o advogado Aryldo de Oliveira e sua equipe para defendê-lo.
Em julho, o júri do réu que está detido preventivamente, foi anulado
depois de três dias após Dota destituir seu então defensor Ricardo
Martins. No julgamento, o motoboy chegou a alegar inocência quando foi
interrogado.
“Declaro que realmente matei Bianca Consoli, na época minha conhada
[SIC], em uma briga em sua residência, e assim confesso que matei
referida Bianca Ribeiro Consoli e maiores detalhes irei contar no dia 18
de setembro [a data foi antecipada pela Justiça para o dia 16]. Porém
em relação ao estuplo [SIC] da referida Bianca, eu não confesso, porque
sou inocente e de forma alguma eu estuplei [SIC] a Bianca, jamais faria
isso”, informa a carta que, segundo os novos advogados, foi escrita de
livre e espontânea vontade pelo motoboy.
Para defender seu cliente, Aryldo de Paula irá atuar no próximo
julgamento ao lado dos advogados Mauro Otávio Nacif, Márcio Gomes
Modesto, Felipe Eduardo Miguel Silva, Eleonora Rangel Nacif e Ana Paula
Cortez.
“Ele disse que a consciência dele pesou e está arrependido por tudo o
que fez e resolveu confessar”, comentou Paula, que pretende anexar a
carta original no processo que Dota responde por homicídio triplamente
qualificado (por motivo fútil, meio cruel e recurso que dificultou a
defesa da vítima) e estupro contra Bianca. "A importância dela é a
garantia de que ele irá confessar no júri, porque o receio da defesa é
que ele seja influenciado a não confessar o crime. Já que ele nos
confessou, a orientação é que ele confesse também em juízo.”
Na carta de confissão do assassinato da cunhada, atribuída ao motoboy,
está escrito: “Quero dizer que eu não fui à casa para mata-lá, porém
devido as sircunstâncias [SIC], brigas e discussão eu tirei a vida dela
mesmo sem eu querer”.
Questionado sobre o que Dota quis dizer com ‘eu tirei a vida dela mesmo
sem eu querer’, Paula explicou que, segundo o cliente, a estudante
tinha agredido o enteado do motoboy em 2011 e ele foi tirar satisfações
com Bianca. Após discutirem, a matou sem que tivesse planejado isso. O
garoto citado é filho de Daiana Ribeiro Consoli, com quem o réu estava
casado em setembro de 2011. A mulher era irmã da vítima, encontrada
morta dentro da casa dos pais no dia 13 daquele mesmo mês.
“Ele disse que cobrou uma providência de sua mulher e perguntou se ela
não iria tomar postura. A esposa teria dito que qualquer dia veria isso.
Os dias se passaram e ele contou que foi conversar com Bianca, que o
chamou de vagabundo e usuário de drogas por dois dias seguidos. Ele,
então, falou que foi tirar satisfação na casa dela. Ela abriu o portão,
ele entrou e discutiram. Teve bate-boca e ela deu um tapa no rosto, ele a
agrediu e deu uma gravata nela, que desfaleceu. Ele, com medo do que
ocorreu, inseriu uma sacola plástica na garganta dela. Ele disse que
isso foi sem querer e que não foi para lá para matá-la", narrou Aryldo
de Paula sobre o que afirmou ter ouvido de Dota na prisão.
Réu nega estupro
A estratégia da defesa é que com a confissão do homicídio, Dota possa
se defender com mais tranquilidade da acusação de estupro. Na carta, há
um trecho no qual o motoboy nega o abuso. “Quero dizer também que esta
acusação de estuplo [SIC] é absurda, eu não tinha nenhum interesse de
estuplo [SIC] e também não havia naqueles momentos nenhum clima ou
situação para o estuplo”, informa o documento.
Sobre o fato de ter demorado quase dois anos para confessar, o motoboy
alegou que “demorei a confessar a questão da morte, quero explicar que
demorei por motivos particulares e por motivos da minha mente e de minha
alma. Sou cristão e estou arrependido daquilo que fiz, pois não
confesso a questão de sexo”.
De acordo com sua defesa, Dota não tinha qualquer tipo de atração por
Bianca porque ela sempre o ofendia. “Ele ficava até com certa raiva
dela. Mas a intenção dele não era matar e estuprar”, comentou Paula, que
refuta ainda a acusação do Ministério Público de que a vítima tenha
sido estuprada. “Segundo o meu cliente ouviu de um policial civil, ele
nunca viu uma vítima de estupro estar vestida. O laudo [do Instituto
Médico Legal] disse que há uma lesão no ânus que pode ter ocorrido até
12 horas antes do crime. Segundo esse documento, o namorado de Bianca
manteve relação com ela antes. Ou seja, o laudo deu negativo para
estupro."
Numa eventual condenação do réu, a confissão serve como atenuante da
pena a ser aplicada. “Confissão espontânea é caso de atenuação em até um
terço”, disse o advogado.